Texto:
Ivan Martins (Revista Época)
Percebi outro dia que parte dos casais que eu vi surgir no início dos
anos 2000 não existe mais. Várias pessoas que começaram a namorar
naquela época, e que nos anos seguintes viriam a casar e ter filhos, não
estão mais juntas. Elas se separaram ou estão em processo de separação.
Começam inclusive a formar novos pares. Algumas estão com pessoas
totalmente novas, outras revisitam relações antigas. Os que estão
sozinhos têm o ar de que ainda não se acostumaram à nova situação.
Todos parecem estar bem, mas, ainda assim, um pedaço de mim entristeceu ao constatar as separações.
Acho que a gente simplesmente não gosta que as histórias dos outros
acabem. A vida das pessoas de quem a gente gosta deveria ser como um
filme que termina, congela e se eterniza no beijo final. Assim ele pode
ser repetido a qualquer momento. A gente quer um final feliz eterno
porque estava lá quando os amigos se agarraram pela primeira vez, porque
soube quando eles transaram no réveillon da praia, porque dançou, bebeu
e se emocionou até as lágrimas quando eles se casaram. Naquele dia
memorável eles pareciam tão apaixonados, tão jovens e tão bonitos que
nada poderia impedir que se amassem para sempre.
Alguém aí põe “Eduardo e Mônica”, por favor?
A imagem da felicidade dos casais amigos é tão preciosa que não
pertence apenas a eles. Ela faz parte da nossa vida. Compõe o filme da
nossa existência. Está lá junto com a foto engraçada em que nos preparamos para a primeira
balada. Faz parte da mesma sequência em que estamos gritando e batendo
panelas na passeata. Lembra daquele momento em que todo mundo está
bêbado e abraçado na festa da formatura? A gente se amava tanto… Essa é a
sensação, essa é a imagem que a gente quer levar para o resto da vida.
Pode tocar “With a little help from my friends”, da abertura de Anos Incríveis.
Nostalgia é um sentimento delicioso, mas ele não deveria dirigir a
nossa vida. Assim como a adolescência e os dias de “cabelo ao vento e
gente jovem reunida” da faculdade fatalmente acabam, a grande paixão
inesquecível da juventude também deixa de existir para muitos de nós.
Haverá aqueles que tendo encontrado o amor aos 17 anos crescerão com ele
até casar, ter filhos e construir, com base nessa relação afortunada,
uma vida intensa e plena. Para outros, não. Para esses será preciso
deixar para trás o amor dos 20 anos e descobrir outras formas de amar,
outras pessoas, outros tipos de relação. Também nisso há uma espécie de
fortuna: a possibilidade de viver outras vidas na mesma vida, a
possibilidade de começar de novo quantas vezes for preciso.
A boa notícia é que a vida se renova em todas as formas que a gente decide viver. Muitas vezes literalmente.
No mesmo momento das separações, há pessoas que estão celebrando
uniões duradouras com o primeiro filho, depois de terem batido pé por
boa parte do mundo. Há outras que tendo procurado o amor com a dedicação
e a ansiedade dos caçadores de tesouro, agora parecem sossegadas, e se
preparam para por no mundo uma menina que nasce para dizer: encontrei!
No mundo que nós recebemos de nossos pais, e ajudamos a definir com
as nossas escolhas todos os dias, parece não existir uma única direção
em que as coisas se movem. Certamente não existe uma única maneira de
fazer as coisas e um tempo único em que elas aconteçam. Todos os tempos
convivem e todos os estilos de vida se tocam. O essencial é que todos
eles sejam cercados de carinho, amizade e tolerância.
Não é possível estender a ternura visceral e a solidariedade da
adolescência para o resto da vida, mas talvez seja possível organizar um
mundo do qual ela não tenha sido varrida. Um mundo em que as pessoas
construam suas vidas, da forma que acharem melhor, sob o olhar generoso e
cúmplice de quem fez parte dela. Com a ajuda dos amigos e cercado por
eles, fica tudo mais fácil.